segunda-feira, 16 de julho de 2007

O último voo...


Ela tinha tudo planeado. A vida deixou de ter sentido quando ainda se sentia feliz, agora tinha-se tornado insuportável vivê-la.

Naquela manhã saiu de casa decidida a não voltar. Levava na carteira o indispensável para ser reconhecida quando o inevitável acontecesse.

Despediu-se das suas companheiras de sempre, duas gatas que naquele dia pareciam pressentir a saudade que se abatia sobre aquelas paredes. Ela não conseguiu sorrir, as lágrimas caíram enquanto se desfazia em festas.

Pelo caminho, tocava Palma.

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Tinha chegado ao fim. A rota estava viciada, as cartas só indicavam um caminho. E o Palma sabia melhor do que ela, dos seus sonhos, das suas vitórias e das suas derrotas.

O mar estava à sua espera. Fazia pequenas gracinhas com as ondas. A névoa encobria a lágrima que teimava em escorregar. Não era dúvida o que sentia, era saudade de tudo aquilo que não viveu. Fechou os olhos e deixou-se cair. Os olhos fechados e o vento a acariciar-lhe a cara. O corpo pesado e uma sensação de liberdade que não sentia desde que era criança e o perigo não representava as barreiras reais do mundo dos crescidos.

Uma dor aguda fez com que se encolhesse e depois o infinito. Deixou de lutar.

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A queda foi quase perfeita, repetia o nobre surfista que a tinha salvo da morte.

Desceu num voo silencioso e caiu sem bater em nenhuma rocha. Acabou por lutar com a corrente que a atirou vezes sem conta contra a falésia, até ser resgatada pelo jovem de olhos verdes e pele muito queimada pelo sol.

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Só se dá realmente valor ao sofrimento dos outros, quando percebemos que nada podemos fazer por eles.

O corpo não suportou os traumatismos, vegetava com inúmeras contusões, retratava a realidade daquela alma em desespero. As cicatrizes do rosto seriam para sempre a recordação da sua última vontade. E para os outros aquela era uma verdade surda que poucos iriam aceitar e suportar.

A sua respiração não alimentava esperanças. As máquinas adiavam apenas o esperado. E ela lutava por se manter assim. Ninguém!

4 comentários:

Anónimo disse...

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Beijo

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Rui @t Blog disse...

Um silêncio de respeito por quem teve a coragem de parar de lutar.
Fica-nos a incapacidade de poder ter feito algo suficientemente capaz de o evitar.
Obrigado pelo texto e por nos lembrar.

Zorba, O Buda disse...

Vida e morte: duas faces da mesma moeda que é este universo. Enjoy the life*

Helder Ribau disse...

espetacular... gosto da forma de escrever... gosto do blog :)